Um passo de cada vez

Um passo de cada vez

Por Carina Valente

Eu tento meditar…

É difícil. Às vezes acho que consegui, mas aí fico na dúvida… Será que foi? Será que não?

Daí vem um pensamento do nada e você tenta se autorregular novamente. Respiração profunda. Tenta focar naquele ar entrando pelo nariz, chegando aos pulmões e deixando o corpo…

Mas aí vem outro pensamento intrometido, do nada.

Fui comentar isso com meu irmão. Ele logo:

— Isso aí não é pra gente não, irmã.

Mas peraí… Se um “não” nega o outro, acabei de ganhar um incentivo.

Sou aquela ansiosa otimista.

Sigo tentando…

Assim como sigo tentando reorganizar a vida, construir metas, fazer planos.

Mas aí “construir” me lembra uma obra. Pé sujo de barro, barulho, gritaria, material espalhado para todo lado.

Então respiro — de novo — e penso se o melhor não é simplesmente viver o dia e entender que essa construção pode acontecer por meio de pequenos passos, pequenas escolhas e alguns acertos pelo caminho.

Uma meta pode existir, claro. Ela pode ser o objetivo. Mas talvez o caminho até ela não precise ser tão pesado.

Pode ser como montar uma obra de Lego.

Quem é mãe sabe bem.

Você abre o manual, separa as peças e começa. Uma pecinha aqui, outra ali. Às vezes acha que entendeu errado, desmonta e começa de novo.

E tudo bem.

Talvez a maturidade — por mais questionável que seja no meu caso, já que às vezes ainda sinto minha cabeça como se tivesse vinte anos — esteja justamente em começar a entender isso.

Eu já tranquei faculdade, já tentei negócio próprio, já parei para ser mãe e hoje tento olhar de uma forma diferente para a profissão que exerço desde que concluí meu curso técnico.

Sou desenhista.

E, aos 46 anos, ainda tenho aquele pé atrás, sabe?

Aquela vozinha da autossabotagem que pergunta se ainda dá tempo, se ainda vale a pena, se não seria melhor deixar algumas coisas quietas e simplesmente seguir como está.

Mas resolvi fazer diferente.

Sem grandes revoluções.

Aos poucos.

Tentando olhar para a minha profissão com outros olhos. Tentando entender o que ainda posso construir a partir de tudo aquilo que já vivi.

Estou concluindo meu curso e já olhando para uma pós-graduação que faça sentido na área de projetos, dando um upgrade no que já faço.

E talvez essa seja justamente a diferença entre alguns tropeços do passado e o que estou tentando fazer agora.

Hoje entendo um pouco melhor que as coisas precisam acontecer no seu tempo.

Não é fácil.

Ainda tenho que tentar impedir que a maldita ansiedade me devore quando quero que tudo aconteça para ontem.

Mas estou aprendendo.

Aprendendo a respeitar o processo.

Sem precisar enxergar a construção inteira.

Por enquanto, basta encontrar a próxima peça.